Vício em celular: como terapia ajuda pessoas a recuperar o controle
Conheça histórias de pessoas que usavam até 14h por dia no celular e estão em terapia para combater o vício em dispositivos móveis

O desafio crescente do vício em dispositivos móveis
O vício em celular se tornou uma preocupação cada vez mais presente na sociedade moderna. Pessoas de todas as idades enfrentam dificuldades para controlar o tempo gasto em seus aparelhos, levando a consequências significativas em suas vidas pessoais e profissionais. A dependência digital representa um fenômeno complexo que vai além de simplesmente usar muito o telefone, envolvendo compulsão, ansiedade e impactos psicológicos profundos.
Marios, personal trainer em Londres, vivenciou essa realidade de forma extrema. No seu dia mais crítico, ele passava mais de 14 horas com os olhos fixos na tela do seu celular, principalmente consumindo conteúdo no Instagram. Essa dedicação obsessiva o levou a buscar ajuda profissional, iniciando um curso de 12 sessões de terapia particular especializada em combater a compulsão digital que ele acreditava estar ligada à solidão.
Reconhecendo os sinais de dependência digital
A dificuldade em distinguir entre uso moderado e vício em celular permanece um desafio para muitos profissionais de saúde. Embora a dependência de dispositivos móveis ainda não seja oficialmente reconhecida como transtorno de saúde pela maioria das autoridades médicas internacionais, dados preocupantes indicam a magnitude do problema. Uma pesquisa recente da Deloitte com mil adultos revelou que 70% dos entrevistados acreditam que passam tempo excessivo em seus telefones.
James, um homem de 48 anos em tratamento em um centro de reabilitação especializado, ilustra como o vício em celular pode se entrelaçar com outras dependências. Ele procurou inicialmente ajuda para combater o alcoolismo, mas rapidamente ficou evidente que sua dependência digital estava igualmente fora de controle. Após perder seu emprego, seus dias se tornaram consumidos pela rolagem contínua em redes sociais, verificação obsessiva de notícias e monitoramento constante de curtidas e comentários em postagens que havia feito.
Impacto nas instituições de tratamento
Centros de reabilitação especializados relatam um aumento preocupante em casos de vício em celular. O UK Addiction Treatment Centres (UKAT), que atende aproximadamente 3.500 pessoas anualmente, observou uma mudança dramática em sua população de pacientes. No ano passado, um em cada três clientes tratados por dependência de substâncias também apresentava uma dependência secundária de telefone. Em 2019, essa proporção era de apenas um em cada dez, demonstrando o crescimento exponencial do problema em menos de cinco anos.
Alguns pacientes chegam até a abandonar seus programas de tratamento para problemas primários de dependência química ou de álcool porque se recusam a entregar seus dispositivos móveis ao chegar às clínicas. Essa resistência em se separar do celular revela a intensidade da dependência digital enfrentada por muitos indivíduos.
Compreendendo a neurobiologia do vício em celular
Especialistas em comportamento aditivo explicam que o vício em celular funciona através de mecanismos neurobiológicos semelhantes aos dos vícios tradicionais. Kelly Watson, terapeuta-chefe do centro Steps Together em St Helens, norte da Inglaterra, descreve como nosso cérebro contém um sistema de recompensa altamente sensível. Quando recebemos uma mensagem, uma curtida nas redes sociais ou descobrimos uma informação nova em um site, a dopamina—um mensageiro químico crucial que regula prazer e motivação—é liberada no cérebro.
Para algumas pessoas, a necessidade contínua por esse estímulo neurológico se intensifica exponencialmente. Eventualmente, esse ciclo de recompensa pode assumir o controle absoluto, fazendo com que horas inteiras ou até dias desapareçam consumidos por atividades online. O celular, portanto, funciona como um gerador ininterrupto de estímulo dopaminérgico, mantendo o usuário preso em um ciclo praticamente inescapável sem intervenção profissional.
Histórias de recuperação e transformação pessoal
Jenny, membro do Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), vivenciou um vício em celular tão severo que deixava de dormir por dias. Sua dependência era tão profunda que comia e bebia minimamente, enquanto gastava cada momento disponível consumindo qualquer tipo de conteúdo—filmes, séries, vídeos curtos—desde que estivesse continuamente conectada. O ponto crítico chegou quando ela percebeu a intensidade de sua adição apenas durante tentativas de abstinência, precisando pedir a amigos e familiares que guardassem seus dispositivos sob chave.
Quando recaía, Jenny chegava a tomar emprestado—ou mais precisamente, tomar sem permissão—laptops e smartphones de seus familiares. Esse comportamento gerava ciclos de culpa e vergonha que ela tentava suprimir consumindo ainda mais conteúdo digital. Após anos buscando diferentes formas de ajuda, Jenny descobriu o programa de 12 passos do ITAA. Hoje, cinco anos após abandonar completamente o consumo de conteúdo digital em dispositivos convencionais, ela se sente em controle usando apenas um telefone básico e acessando a internet exclusivamente para trabalho.
Tom, outro membro do ITAA, descreve como seu vício o levou a lugares emocionalmente perigosos. Ele era capaz de perder meses inteiros consumindo conteúdo simultaneamente através de múltiplos canais—ouvindo música, assistindo YouTube, navegando redes sociais e jogando videogame de forma paralela por dez horas seguidas. Essas sessões maratonas o deixavam tão esgotado que precisava caminhar por duas horas antes de retornar ao consumo digital, um padrão que podia se estender por meses consecutivos. A intensidade do vício custou a Tom seu negócio e seu senso de propósito existencial, levando-o até pensamentos suicidas. Através da recuperação, Tom agora encontra alegria genuína em atividades offline como pickleball, exercícios ao ar livre e frequência à academia.
Abordagens terapêuticas para dependência digital
Centros de reabilitação como Rainford Hall oferecem programas residenciais intensivos que duram no mínimo 28 dias. Durante sua permanência, os pacientes recebem terapia individual e em grupo focada nas questões psicológicas subjacentes que impulsionam o vício, enquanto são gradualmente ajudados a reduzir sua dependência. Kelly Watson trabalha com os clientes para diminuir progressivamente o tempo de tela, ao mesmo tempo monitorando quais pensamentos e sentimentos emergem quando não estão com seus dispositivos.
A estratégia reconhece que frequentemente a dependência de celular funciona como mecanismo de dissociação—permitindo que indivíduos escapem de realidades difíceis através da imersão contínua em conteúdo digital. Hilda Burke, psicoterapeuta credenciada pela British Association of Counselling and Psychotherapy, recomenda que pessoas preocupadas com seu uso analisem seu próprio comportamento. Ela sugere questionar-se:
