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Expansão territorial e populacional dos EUA em 250 anos moldou divisões

Conheça como a expansão territorial e populacional dos EUA transformou o país em potência global com divisões políticas e culturais marcantes nos últimos 250 an...

Expansão territorial e populacional dos EUA em 250 anos moldou divisões
Fonte: g1.globo.com/mundo/noticia/2026/07/04/como-expansao-territorial-e-populacional-dos-eua-em-250-anos-transformou-o-pais-em-uma-potencia-marcada-por-divisoes.ghtml

A transformação geográfica e demográfica de uma nação em 250 anos

A expansão territorial dos EUA representa uma das trajetórias mais significativas da história moderna. Desde a declaração de independência da Grã-Bretanha há 250 anos, os Estados Unidos evoluíram de um conjunto modesto de assentamentos costeiros para uma superpotência global que se estende continuamente pelo continente. Essa expansão territorial dos EUA não apenas redefiniu o mapa político mundial, como também criou profundas divisões internas que perduram até os dias atuais.

O crescimento geográfico foi extraordinário. As 13 colônias originais, que cobriam 430.000 milhas quadradas, expandiram-se para aproximadamente 3,7 milhões de milhas quadradas – um aumento de oito vezes em pouco mais de dois séculos. Paralelamente, a população experimentou um crescimento igualmente espetacular, passando de aproximadamente quatro milhões de habitantes em 1790 para 343 milhões em 2025, representando um aumento de 8.475%.

Raízes culturais e políticas das divisões americanas

Embora a nação contemporânea seja praticamente irreconhecível para seus fundadores, as influências culturais e políticas que definem o país atual têm origem nas primeiras distinções que marcaram a colonização. Os fundadores americanos enfrentaram debates acalorados sobre escravidão, constituição e sistemas econômicos que criaram divisões evidentes na população desde o princípio.

Colin Woodard, diretor do Laboratório de Nacionalidade da Universidade Salve Regina, identifica diversas identidades regionais enraizadas nessas primeiras fissuras. A região norte, denominada "Yankeeland", originou-se dos colonos puritanos que fugiram da perseguição religiosa europeia, consolidando uma visão pluralista com contribuições posteriores de alemães e escandinavos. A zona central dos Apalaches foi inicialmente colonizada por escoceses e irlandeses de espírito independente, cuja experiência com opressão nas ilhas britânicas moldou uma desconfiança profunda da autoridade governamental.

Conforme explicou Woodard, para os povos apalaches, "liberdade significa maximizar a autonomia e a liberdade do indivíduo, e qualquer aumento no poder do governo significa, axiomaticamente, que os indivíduos são menos livres". Essa filosofia contrasta radicalmente com a visão pluralista de Nova Inglaterra. Enquanto isso, o Sul profundo constituiu-se como uma sociedade oligárquica e hierárquica, formada por uma classe de proprietários de terras, alguns provenientes de plantações escravistas caribenhas.

Destino manifesto e conflitos territoriais

Conforme a nação expandia-se para oeste, a expansão territorial dos EUA adquiriu uma força ideológica própria. Muitos americanos acreditavam ser seu "destino manifesto" expandir-se não apenas até o Pacífico, como por todo o Hemisfério Ocidental. Essa ideologia justificou não apenas a conquista de novos territórios, mas também a tentativa concertada de apagar a cultura dos povos indígenas que ocupavam essas terras durante séculos antes da chegada europeia.

A expansão westward criou novos pontos de convergência e conflito. O interior do oeste, com sua paisagem hostil, atraía indivíduos com visões individualistas similares às dos Apalaches. Na costa do Pacífico, porém, esses valores entraram em conflito com os dos comerciantes e marinheiros originários do nordeste americano. Essas divisões geográficas moldaram rivalidades políticas que se manifestam claramente nos mapas eleitorais contemporâneos, com estados republicanos no sul e interior western, e estados democratas no nordeste e costa oeste.

Imigração em massa e transformação demográfica

Embora a expansão territorial dos EUA tenha praticamente cessado no final do século 19, o crescimento populacional continuou acelerado, principalmente através da imigração. A primeira onda migratória, iniciada na década de 1840 e estendendo-se até 1889, trouxe aproximadamente 14 milhões de pessoas, majoritariamente do norte e oeste europeu. A segunda onda, com mais de 18 milhões de migrantes provenientes do sul e leste europeu, estendeu-se de 1890 até a década de 1920.

Cada onda imigratória provocou reações defensivas entre americanos que temiam perder empregos e ver seu modo de vida ameaçado. A Lei de Exclusão Chinesa e outras legislações restritivas logo se seguiram. A Lei de Imigração de 1924 limitou tão drasticamente a imigração que sua curvatura é perfeitamente visível no gráfico de crescimento populacional anual dos EUA. A onda migratória mais recente começou na década de 1960, quando essas restrições foram suspensas, trazendo desde então mais de 70 milhões de imigrantes, muitos da Ásia e América Latina, incluindo aproximadamente 18 milhões apenas do México.

Em 2024, imigrantes constituíam 14,8% da população americana, equivalente ao pico histórico de 1890 segundo o Migration Policy Institute. A imigração foi responsável por 84% do crescimento populacional total dos EUA no período recente.

Reconfiguração das divisões políticas contemporâneas

As primeiras ondas imigratórias, impulsionadas pela industrialização, ampliaram significativamente o poder político do norte americano. Esse desequilíbrio geográfico alimentou ainda mais divisões ideológicas. Líderes do Sul pressionaram pela expansão territorial e pela incorporação de estados escravistas para manter poder político nacional, culminando na separação que desencadeou a Guerra Civil.

Porém, tendências modernas inverteram essa divisão geográfica. Imigrantes e migrantes do norte são atualmente atraídos para o sul, especialmente para as economias dinâmicas do Texas e Flórida. Simultaneamente, a recente onda de imigração ilegal na fronteira sul aumentou tensões políticas.

O conservadorismo populista contemporâneo reflete essas mudanças nos centros de poder. Propostas de expansão territorial – como adquirir a Groenlândia, repatriar o Canal do Panamá e incorporar Canadá e Venezuela – representam uma inversão da trajetória dos últimos 250 anos. O país expandiu-se fisicamente durante seu primeiro século, posteriormente cessou conquistas territoriais para abrir-se à imigração, e agora busca novamente expandir fronteiras físicas enquanto restringe a entrada de pessoas.

Um quarto de milênio de transformações e continuidades

Na perspectiva da história mundial, 250 anos constituem um instante efêmero. Para os Estados Unidos, porém, representaram uma transformação colossal. A expansão territorial dos EUA, combinada com ondas migratórias, reformulou completamente a composição geográfica, demográfica e política da nação. Simultaneamente, as divisões fundamentais que emergiram durante a colonização e formação da república persistem, manifestando-se continuamente nas tensões entre visões de liberdade individual versus coletiva, entre abertura migratória e fechamento de fronteiras.

Conforme observou Heather Cox Richardson, professora de história dos EUA no Boston College, "a única coisa que nos une é o conceito de que podemos construir o futuro que desejamos". Esse ideal unificador, porém, compete constantemente com as divisões estruturais que definiram a nação desde suas origens, tornando a história americana um exercício permanente de negociação entre forças centrífugas e aspirações de coesão nacional.

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