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Mulher desaparecida na ditadura chilena é encontrada viva na Argentina

Bernarda Vera, declarada morta na ditadura de Pinochet, foi encontrada viva na Argentina após 51 anos. DNA confirmou identidade da mulher que fugiu para o exter...

Mulher desaparecida na ditadura chilena é encontrada viva na Argentina
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A história de Bernarda Vera: do desaparecimento à reencontro

A mulher desaparecida na ditadura chilena sob o regime de Augusto Pinochet reaparece viva após mais de cinco décadas. Bernarda Rosalba Vera Contardo, agora com 80 anos, foi localizada na Argentina pela emissora Chilevisión em meados de 2024. Durante décadas, a mulher desaparecida foi considerada uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado documentadas no Relatório Rettig, publicado em 1991.

O caso de Bernarda Vera traz à tona questões complexas sobre o legado da ditadura chilena e os processos de memória histórica. Seu paradeiro foi perdido em outubro de 1973, apenas semanas após o golpe de Estado que instaurou a ditadura. A confirmação de sua sobrevivência mediante teste de DNA, com probabilidade de identificação superior a 99,9999%, encerra um mistério que perseguiu sua família e as autoridades chilenas por mais de cinqüenta anos.

Os fatos documentados no Relatório Rettig

Em 1973, Bernarda Vera tinha 27 anos e trabalhava como professora de escola pública em Puerto Fuy, na região de Los Ríos, no sul do Chile. Ela era militante política ativa, integrante do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR). A mulher desaparecida deixou para trás uma filha de cinco anos de idade.

Segundo o documento oficial, Bernarda Vera teria sido detida por militares no dia 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na pré-cordilheira dos Andes. O Relatório Rettig afirmava que ela havia sido executada junto com outras 15 pessoas. O documento oficial descrevia: "Acredita-se que ela tenha sido executada na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, ao lado dos outros prisioneiros de Liquiñe."

A Comissão da Verdade e Reconciliação, formada em 1990 durante o governo de Patricio Aylwin, coletou testemunhos dos pais de Bernarda Vera relatando que haviam perdido seu paradeiro pouco antes do golpe. Seu nome constou na lista de desaparecidos do regime autoritário, e sua família recebeu pensões de reparação como vítimas de violações de direitos humanos.

A versão alternativa: fuga para as montanhas

As primeiras dúvidas sobre a narrativa oficial emergiram de testemunhas que conviveram com Bernarda Vera durante a repressão. José Manuel Bravo, ex-membro do MIR, registrou em arquivo no Museu de Neltume que um grupo de pessoas conseguiu escapar dos militares e fugir para as montanhas em outubro de 1973.

Segundo Bravo, Bernarda Vera, cujo pseudônimo na organização era "Anita", estava entre os fugitivos. Ele descreveu: "A Anita era uma mulher magra, mas de uma vitalidade que permitia a ela suportar a vida caminhando nas montanhas." No livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", publicado em 2012, Bravo revelou que permaneceram junto a Bernarda Vera nas montanhas até dezembro de 1973, ou seja, dois meses após a data documentada de sua suposta detenção.

Acredita-se que naquela época Bernarda Vera conseguiu escapar clandestinamente do Chile para a Argentina com ajuda de Svante Grände, membro sueco do MIR. De lá, ela teria viajado para a Suécia com um marido argentino e filho recém-nascido. Na Suécia, recebeu seu primeiro visto de residência em 1978 e obteve cidadania em 1984. Retornou à Argentina no final da década de 1990, onde foi finalmente localizada em Miramar, balneário ao sul de Buenos Aires.

A confirmação pelo DNA e implicações legais

O relatório pericial de DNA ordenado pelo ministro extraordinário Álvaro Mesa Latorre permitiu confirmar nesta semana a identidade de Bernarda Vera. Os antecedentes científicos, correspondentes ao perfil genético e amostras dos familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal do Chile, determinaram probabilidade de identificação superior a 99,9999%.

As autoridades chilenas solicitaram que ela se submetesse ao teste, e Bernarda Vera concordou. O processo foi realizado por meio de tribunal em Mar del Plata, Argentina. A confirmação de que Bernarda Vera não é uma prisioneira desaparecida desencadeou debates políticos significativos. Deputados de direita, apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram investigação para determinar se houve má-fé no recebimento de fundos de reparação por parte da família.

O encontro com a filha desaparecida

A filha que Bernarda Vera deixou no Chile tinha apenas cinco anos em 1973. Agora com 58 anos, ela se viu subitamente confrontada com a notícia de que sua mãe estava viva. Durante décadas, essa filha procurou incansavelmente por sua mãe, convencida de que ela havia falecido.

A jornalista Florencia Valenzuela, que cobriu a história para Chilevisión, relatou a dificuldade do encontro: "Foi superdifícil porque, como jornalista, eu precisava contar a ela o que estávamos fazendo, que havíamos encontrado sua mãe. E ela não acreditava." A filha não quis dar entrevista, mas transmitiu incredulidade aos repórteres. Segundo Valenzuela, "ela tem certeza de que, se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela."

Na segunda-feira 27 de julho, o ministro extraordinário Álvaro Mesa confirmou pessoalmente a verdade para a filha, informando-a dos resultados do teste de DNA. As autoridades chilenas agora investigam se a família tinha conhecimento anterior do destino de Bernarda Vera.

Os desejos de Bernarda Vera

Bernarda Vera conseguiu escapar das câmeras no dia em que as equipes de imprensa bateram à sua porta. Seu filho Maximiliano, porém, conversou com jornalistas longe do microfone. Segundo relatos, Bernarda Vera sempre imaginou que um dia seria encontrada, mas expressou desejo de viver em paz.

"Ela não irá renunciar à vida que sempre levou, é uma mulher forte e não tem medo de nada", afirmou Florencia Valenzuela. A mulher desaparecida que reapareceu na Argentina não deseja falar sobre seu passado traumático. Seu filho reafirmou que ela simplesmente quer viver uma vida tranquila, longe dos holofotes e das memórias dolorosas.

Implicações políticas e administrativas

A revelação do caso abriu investigações sobre o conhecimento que autoridades chilenas tinham sobre Bernarda Vera. O ex-policial Sandro Gaete, que fez parte do Plano Nacional de Busca, renunciou ao cargo e denunciou que as autoridades do governo Boric tiveram evidências em 2024 mas não as levaram à Justiça oportunamente.

Segundo sua versão, o Estado chileno contava com informações que remontavam a 2007. O governo de Boric afirmou haver enviado os antecedentes ao ministro Álvaro Mesa, que abriu a investigação culminando na resposta definitiva. O governo atual anunciou que solicitará investigações sumárias para determinar responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para ações judiciais.

A ação judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberta em 2009 quando o Programa de Direitos Humanos apresentou queixa. Foi temporariamente arquivada em 2014 por impossibilidade de comprovar circunstâncias do desaparecimento. O advogado Vladimir Riesco afirmou que a filha de Bernarda Vera prestou declaração afirmando nunca mais ter mantido contato com a mãe desde 1973.

Legado da ditadura chilena

O caso de Bernarda Vera exemplifica a complexidade dos processos de justiça transicional na América Latina. A ditadura chilena deixou aproximadamente 40 mil vítimas entre desaparecidos, execuções ilegais, tortura e prisioneiros políticos. Muitos casos permanecem com dúvidas sobre o verdadeiro destino das vítimas.

O reaparecimento de Bernarda Vera, uma mulher desaparecida que conseguiu escapar do regime e construir nova vida no exterior, levanta questões importantes sobre narrativas históricas, verdade e memória. Sua história demonstra como eventos traumáticos podem deixar feridas que transcendem gerações, mesmo quando a sobrevivência é possível.

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