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Mudanças climáticas e insegurança alimentar aumentam risco de conflitos

Pesquisas indicam que escassez de alimentos e mudanças climáticas elevam insegurança alimentar global, gerando riscos de conflitos e instabilidade em regiões vu...

Mudanças climáticas e insegurança alimentar aumentam risco de conflitos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Insegurança alimentar como fator de instabilidade global

A insegurança alimentar representa um dos maiores desafios enfrentados pela humanidade no século XXI, impulsionando tensões geopolíticas em diversas regiões do planeta. O sistema alimentar mundial enfrenta pressões crescentes provocadas por fatores climáticos, conflitos armados e interrupções nas cadeias de suprimento. Quando populações inteiras deixam de ter acesso adequado a alimentos, surge um cenário propício para disputas por recursos naturais, migrações forçadas e, em casos extremos, conflitos violentos.

Pesquisadores alertam há anos que a insegurança alimentar alimenta instabilidade social e política. Indivíduos impossibilitados de alimentar suas famílias frequentemente se veem obrigados a disputar terras, água e outros recursos vitais, ou migram para outras regiões em busca de sobrevivência. Em países com instituições frágeis, essas pressões transformam-se em agitações sociais, recrutamento para grupos armados e até conflitos armados declarados.

Impacto das mudanças climáticas na produção agrícola global

As mudanças climáticas já estão reduzindo significativamente a produção de alimentos em diversos pontos do globo. O Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi), desenvolvido por especialistas do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, mapeou como as transformações climáticas estão remodelando a produtividade agrícola ao redor do mundo. Conforme explicado pelo pesquisador Hannes Mueller, envolvido no projeto, "as perdas mais severas estão nas regiões tropicais".

Centenas de milhões de pessoas atualmente residem em áreas onde as colheitas são menores do que há três décadas. Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador enfrentam perdas agrícolas significativas que já impactam suas populações. O Norte da África também apresenta uma situação crítica, com perspectivas extremamente preocupantes nos próximos anos. Mueller destaca que "se você olhar o mapa, a situação parece terrível. Realmente parece horrível."

Um fenômeno El Niño em desenvolvimento ameaça agravar ainda mais a escassez de alimentos para milhões de pessoas no próximo ano. Secas severas e eventos climáticos extremos prejudicam as colheitas em múltiplas regiões, enquanto a elevação do nível do mar causa intrusão de água salgada em terras agrícolas costeiras.

Guerras e tensões geopolíticas agravam a crise alimentar

Simultaneamente às pressões climáticas, guerras e tensões geopolíticas interrompem as cadeias de suprimentos globais que distribuem alimentos e insumos agrícolas. A guerra na Ucrânia provocou repetidas turbulências nos mercados de grãos, afetando países importadores em todo o mundo. Os conflitos envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevaram os preços dos combustíveis e fertilizantes, aumentando dramaticamente os custos para agricultores globalmente.

Além das guerras diretas, proibições de exportação e interrupções comerciais ampliam ainda mais a insegurança alimentar. O Sul da Ásia, com aproximadamente 2 bilhões de habitantes, depende significativamente de importações de trigo, milho e óleo de palma provenientes da Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia. Quando essas rotas comerciais são afetadas, as consequências para populações vulneráveis são devastadoras.

Transformações agrícolas e novos cenários de conflito

Uma descoberta surpreendente do índice Cadi revela que ganhos na produtividade agrícola também parecem aumentar o risco de violência. Mueller explica que a questão central não é apenas a escassez, mas a mudança em si. A crise climática e outros choques não tornam apenas algumas regiões mais pobres; elas também criam novas oportunidades, alterando fundamentalmente o valor das terras e dos recursos naturais.

Em determinados lugares, terras anteriormente consideradas marginais tornam-se produtivas e valiosas, atraindo investidores externos e gerando competição intensa pela propriedade. O Sudão, por exemplo, deverá produzir mais alimentos conforme o clima muda. Porém, enquanto algumas áreas se tornarão mais produtivas, outras sofrerão perdas, criando novos vencedores e perdedores dentro do próprio país e elevando significativamente o risco de conflitos internos.

Mueller ilustra este cenário com um exemplo perturbador: "Se sabemos que sua terra se tornará mais produtiva no futuro, talvez eu queira tomá-la de você hoje. É exatamente nesse ponto que as negociações fracassam e a violência surge."

Democracia como mecanismo de prevenção de conflitos

Uma descoberta marcante da equipe Cadi indica que transformações agrícolas têm maior probabilidade de gerar conflitos em países não democráticos. Quando choques climáticos, insegurança alimentar e competição por recursos atingem democracias, estas tendem a possuir instituições capazes de obrigar grupos com interesses divergentes a negociar em vez de lutar.

Segundo Mueller, embora democracias possam parecer irritantes e burocráticas, esse sistema é fundamentalmente benéfico porque força as pessoas a conversarem entre si. Existem plataformas para negociação e instituições que auxiliam na resolução de conflitos. Este processo contínuo de busca por soluções está no cerne da prevenção de confrontos violentos.

O Sul da Ásia como região de alerta máximo

Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), alertou que "não prestamos atenção suficiente às ameaças que atingem a base dos nossos meios de subsistência". As regiões que demandam observação mais atenta são o Sul da Ásia e o Sahel, onde a vulnerabilidade climática e o rápido crescimento populacional criarão um cenário crítico.

O Sul da Ásia destaca-se por depender tanto de recursos hídricos vulneráveis quanto dos mercados globais de alimentos. A agricultura local enfrenta ameaças crescentes de ondas de calor, enchentes, queda da produtividade das terras e intrusão de água salgada causada pela elevação do nível do mar. As cordilheiras do Himalaia e do Hindu Kush, que fornecem a maior parte da água usada na agricultura e abastecimento humano da região, estão sofrendo degelo acelerado devido às mudanças climáticas.

Fahimi alerta que no curto prazo o aumento da água do degelo pode ampliar a disponibilidade hídrica, mas mais adiante neste século a região poderá enfrentar "uma enorme crise humanitária que poderá afetar cerca de 2 bilhões de pessoas".

Perspectivas futuras e necessidade de adaptação institucional

Nos próximos 25 anos, quase metade da população mundial poderá viver em áreas onde as fazendas estarão produzindo menos alimentos. À medida que a insegurança alimentar se aprofunda, as consequências sociais e políticas também podem se multiplicar. Quando a escassez de recursos obriga as pessoas a buscar outras formas de sustento, frequentemente acabam sendo recrutadas por grupos terroristas, como exemplificado em casos da Nigéria e Afeganistão.

Em outros cenários, a frustração da população é direcionada aos governos por sua incapacidade de mitigar os impactos sobre a subsistência. A legitimidade governamental passa a ser questionada, evoluindo potencialmente para conflitos violentos. As mudanças climáticas, guerras e interrupções comerciais não levam automaticamente a conflitos, mas a adaptação climática não pode limitar-se ao cultivo de diferentes culturas agrícolas ou uso de novas tecnologias.

A questão fundamental é determinar se as sociedades possuem instituições capazes de administrar as transformações decorrentes da crise climática e insegurança alimentar. Onde governos, tribunais e instituições locais conseguem ajudar comunidades a negociar novas realidades, os impactos dos choques podem ser absorvidos. Onde essas instituições são fracas, a pressão sobre os sistemas alimentares rapidamente se transforma em pressão sobre a própria paz e estabilidade global.

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