Brasil tem espaço para negociar tarifas de Trump?
Análise sobre as possibilidades de negociação do Brasil com os EUA frente às tarifas de 25%. Entenda os desafios geopolíticos envolvidos.

Brasil busca reverter tarifas impostas pelos Estados Unidos
As tarifas de Trump representam um desafio significativo para o Brasil, que enfrenta uma taxação de 25% sobre diversos produtos brasileiros impostos pela administração americana. Durante cerimônia realizada na última quarta-feira (22 de julho), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou o compromisso de sua gestão em manter negociações com os Estados Unidos para tentar reverter essa medida protecionista.
"A gente não vai sair da mesa de negociação. Eles que digam que não querem negociar, porque nós vamos estar lá sentados na mesa, fazendo proposta toda vez e desafiando eles a provarem que eles tinham alguma razão de taxar o Brasil porque são deficitários conosco", declarou Lula no Palácio do Planalto. O presidente brasileiro destacou que os Estados Unidos acumulam superávit comercial com o país há décadas, questionando a fundamentação econômica das tarifas.
Componentes geopolíticos além da balança comercial
Especialistas em relações internacionais alertam que a questão envolvida vai muito além de simples cálculos de balança comercial. Em um contexto onde os Estados Unidos buscam rever acordos multilaterais, conter o avanço da influência chinesa e consolidar sua supremacia econômica de forma mais agressiva, os analistas salientam que o Brasil não deveria encarar as tarifas de Trump apenas como uma discussão técnica e comercial.
De acordo com Daniel Vargas, professor de relações internacionais da FGV Direito Rio, as negociações durante o segundo mandato de Donald Trump envolvem aspectos muito mais profundos: "Esse não é apenas um diálogo negocial em sentido estrito. É uma disputa muito mais profunda que envolve tanto questões econômicas e políticas, mas sobretudo questões geopolíticas que se tornaram prioridade para os Estados Unidos".
Vargas explica que as tarifas de Trump carregam duas dimensões principais. A primeira seria a construção de uma afinidade ideológica entre os dois países através de possível impacto nas eleições brasileiras. A segunda seria a utilização das medidas tarifárias para desestimular que países mantenham relações comerciais próximas à China.
Precedentes com Reino Unido, Japão e União Europeia
Recentemente, Reino Unido, Japão e União Europeia assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos, fazendo concessões importantes em troca de maior estabilidade na relação comercial. Contudo, esses países ainda enfrentam incertezas, como o anúncio recente de tarifas sobre combate ao trabalho forçado.
O Canadá, que assinou um amplo acordo comercial com os EUA em 2025, também foi alvo de novas tarifas neste mês, levando os canadenses a acusarem Washington de violar o tratado. Apesar disso, o premiê canadense Mark Carney afirmou que pretende "intensificar" as negociações comerciais com Trump, demonstrando que mesmo países economicamente próximos aos americanos enfrentam dificuldades semelhantes.
A natureza política das tarifas de Trump
Para Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais do Berea College, a dificuldade em negociar reside no fato de que as tarifas de Trump não se tratam de uma questão técnica. "A abertura da investigação no Brasil foi política. Ela começa quando Trump envia uma carta falando sobre Jair Bolsonaro, sobre o Supremo Tribunal Federal", explica Poggio, referindo-se à primeira rodada de tarifas anunciadas em julho de 2025.
Poggio aponta que a aplicação das tarifas estaria mais ancorada em uma visão ideológica do governo Trump, liderada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, do que em uma estratégia de longo prazo. "O governo Trump não pensa dessa forma porque não existe estratégia, existem impulsos e emoção. Não é algo coerente", afirma o professor.
Rubio, filho de cubanos e integrante da ala mais ideológica da administração americana, tem tido papel central na relação do governo Trump com países da América Latina, influenciando significativamente as posições sobre as tarifas de Trump.
Tentativas de negociação do Brasil
De acordo com Daniel Vargas, o Brasil não se absteve de negociar com os Estados Unidos, mas a posição do governo brasileiro não tem levado adequadamente em consideração os componentes políticos envolvidos. "Acho que o governo está tentando negociar, mas de maneira muito estreita, mais do que de qualquer outra negociação em curso ou que aconteceu entre outros países e os Estados Unidos", avalia Vargas.
Gustavo Blum, analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute, sustenta que o Brasil tentou negociar com os Estados Unidos, mas o processo não avançou devido à lógica "maximalista" do governo Trump. "O Brasil não fez uma abertura total e completa, o governo buscou encontrar soluções sem prejudicar setores estratégicos da economia brasileira", destaca Blum.
Questionamentos sobre a efetividade das medidas
Blum defende que as tarifas de Trump ocorrem em um contexto onde os Estados Unidos buscam aumentar sua influência na América Latina, mas questiona a efetividade real da medida. O recente telefonema entre Lula e o líder chinês Xi Jinping, onde um possível acordo entre o Mercosul e a China foi discutido, exemplifica como as tarifas podem produzir um efeito reverso ao buscado pelos americanos.
"Existe uma lógica neste processo, mas que é pautada pela inconstância", afirma Blum, ressaltando a unpredictabilidade da administração Trump em sua política comercial.
Margem limitada de negociação para o Brasil
Carlos Poggio ressalta que não é possível fazer comparação direta entre outras negociações bilaterais dos Estados Unidos e um possível acordo com o Brasil. Os países que negociaram com sucesso mantêm relações geopolíticas e econômicas muito mais importantes com os americanos. "Além disso, no caso de negociações com a Europa e Japão, por exemplo, não havia o componente político, que há no caso brasileiro", aponta Poggio.
Para o professor, o país tem pouca ou nenhuma margem de negociação, considerando que as tarifas de Trump são utilizadas principalmente para conseguir concessões unilaterais e um alinhamento quase incondicional de outros países. "Qualquer negociação com Trump é muito efêmera. Qualquer governo futuro pode anulá-la porque não tem nada que passa pelo Congresso", conclui Poggio, destacando a falta de solidez institucional de acordos feitos com a atual administração americana.
